Protetor Bucal: Qual sua REAL finalidade

Pugilista Oscar Valdez Fierro, do México, usa protetor bucal estilizadocom dentes de vampiro

Ao contrário do que se normalmente se pensa, a principal finalidade do protetor bucal não é proteger a boca (apesar deste ser obviamente um de seus objetivos).

O fato de serem colocados na boca torna natural aos leigos em boxe (e artes marciais em geral) pensar que sua finalidade é a proteção desta região (incluindo lábios, dentes e a mucosa). Para falar a  verdade, por muito tempo os boxeadores também tinham essa opinião. Foi só depois que alguns treinadores mais atentos observaram que um boxeador que perde com facilidade seu protetor também é um boxeador que é facilmente nocauteado é que essa opinião mudou.

Com efeito, querendo aprofundar essa observação, alguns médicos e dentistas — como foi o caso de James B. Costen, na década de 1960, e Hickey, em 1967 — fizeram estudos de raios-X da cabeça de pugilistas veteranos e até experimentos com cadáveres que lhes levaram a entender as vantagens e desvantagens dos protetores convencionais. Esses estudos, bem como o surgimento de novos materiais, como plásticos e resinas com a capacidade de dissipar forças em vez de transmití-las, fizeram com que a estrutura e finalidade dos protetores bucais evoluísse.

Como resultado de todo esse trabalho, sabemos que atualmente a finalidade dos modernos protetores bucais é a de ajudar a evitar lesões cerebrais, lesões das juntas do queixo, fraturas da mandíbula e a herniação da coluna cervical. Bem atrás em importância, vem a proteção dos dentes, gengivas e lábios.

O PROTETOR BUCAL É UM ACESSÓRIO IMPOSTO PARA O BOXE COM LUVAS

A segunda coisa para a qual devemos chamar a atenção é o fato de que, na época do boxe sem luvas, não havia uma tão grande necessidade de protetor bucal como a que temos hoje. Naquela época, como as mãos não tinham a proteção das luvas, dava-se muito menos socos do que atualmente e procurava-se evitar bater na cabeça do adversário. Em particular, nunca visava-se o queixo pois com isso se correria grande risco de quebrar a mão.

O soco no queixo, que é uma das maiores características do boxe atual, surgiu só com as Regras de Queensberry, só com o boxe com luvas, há pouco mais de cem anos. Seu efeito mais visível é o nocaute (palavra que foi inventada exatamente em uma das primeiras lutas com luvas entre pesos pesados: John Sullivan x Ryan, em 1882), mas também pode provocar quebra de dentes e da mandíbula.

Além disso, na época do boxe sem luvas, uma luta era vista mais como uma disputa para ver quem era o mais forte, determinado, corajoso e resistente. A esquiva era vista como um recurso desprezível e efeminado. Assim que os pugilistas eram bastante discretos no uso de técnicas de defesa. Essas limitavam-se ao jogo de pernas, aos bloqueios e desvios de golpe com as mãos, enquanto que furtivamente passava-se poções (à base de sal, cicuta e vinagre) nas mãos e no rosto para engrossar a pele e torná-la mais resistente.

Os primeiros recursos inventados para atenuar os efeitos do soco no queixo foram exercícios de fortalecimento dos músculos do pescoço, o uso de uma guarda mais lateral, fazendo com que o ombro protegesse o queixo, bem como a prática de se lutar com a boca bem fechada e se respirando apenas pelo nariz.

Segundo o historiador do boxe B. R. Bearden, em 1902, o Dr. Jack Marles, um dentista de Londres, inventou o primeiro protetor bucal: era o gum shield, ou “escudo de gengivas”. Ele já tinha várias características hoje consideradas fundamentais: era feito com um bom material, borracha, era feito sob medida e colocado na arcada dentária que mais se projetava. Segundo nos conta B. R. Bearden, o boxeador pioneiro na adoção do gum shield teria sido o campeão mundial dos meio-médios, Ted “Kid” Lewis (170-30-14), a partir de 1909. Muito lentamente, por razões de custo, a prática passou a ser adotada por outros profissionais.
ANATOMIA DAS LESÕES POR SOCO NO QUEIXO

Como citamos acima, atualmente, a principal finalidade dos protetores bucais é ade ajudar a evitar lesões cerebrais, lesões das juntas do queixo, fraturas da mandíbula e a herniação da coluna cervical. Verifique na figura abaixo a posição dessas partes da cabeça e sua relação.

Também temos de insistir que as consequências desses quatro tipo de lesões não se resume a um eventual nocaute. Frequentemente, elas produzem sequelas que duram a vida inteira e as lesões cerebrais e cervicais podem até resultar em morte.

As lesões cerebrais e as lesões das juntas do queixo resultam do fato que a força do soco no queixo faz com que o côndilo da mandíbula bata violentamente na delicada estrutura da fossa glenóide (acompanhe na figura acima). A gravidade das lesões provocadas por essa batida resulta do fato que a fossa está na base do cérebro, estando assim muito próxima dos nervos que saem do cérebro bem como dos vasos que lhe levam sangue. Ou seja, um soco que tenha direção e força capazes de fazer com que o queixo inferior bata na fossa glenóide irá produzir danos neurológicos e circulatórios. O nocaute é provocado por qualquer um desses dois tipos de danos, mas eles também são a causa das concussões e mil e um sintomas menores que podem durar a vida inteira.

Não menos importante é a chamada síndrome do segundo impacto. Ela corresponde à sequências de socos concussivos ou subconcussivos, tipicamente em mais de uma luta, e cujos efeitos fazem progredir as lesões nos nervos e vasos perto da região da fossa glenóide, até o instante em que elas resultam em acidente de grande ou fatal gravidade.

Os estudos tem demonstrado que a região mais afetada nos boxeadores é a do lado esquerdo, como consequência de diretos e cruzados. Observe, por outro lado, que nem todo soco forte no queixo pode provocar o tipo de lesões que falamos acima. Por exemplo, uppercuts tendem a provocar quebra de dentes e do queixo inferior, enquanto que os ganchos tendem a quebrar o queixo inferior e a afastar o queixo inferior em relação à fossa glenóide. Esse afastamento produz uma enorme quantidade de sintomas incômodos, que duram para o resto da vida: dores de cabeça, dificuldade de mastigar, vertigens, etc.

OS DOIS TIPOS DE PROTETORES BUCAIS – Vantagens e Desvantagens

Em termos de estrutura e do modo de serem colocados na boca, temos dois tipos de protetores bucais:

– Convencionais, ou tipo “gum-shield”: são colocados apenas em uma das arcadas dentárias: a mais saliente, normalmente a superior.

– Protetores da junta do queixo, ou “Protetor Bucal Duplo”: são presos pelas duas arcadas, com uma pequena abertura para respiração

Também tem importância decisiva a técnica de fabricação do protetor e o tipo de material usado. Contudo, por enquanto comparamos sua capacidade de proteção de acordo com o tipo de estrutura: convencional ou duplo. A figura abaixo mostra os aspectos básicos:

Note que, em relação à situação sem nenhum protetor bucal, o protetor convencional, ao forçar uma separação maior entre a fossa e o queixo inferior, diminui enormemente o impacto no cérebro e a lesão da junta. Por sua vez, o protetor de junta de queixo praticamente anula essas duas lesões, pois que consegue manter a separação entre queixo e fossa durante o impacto do soco.

QUE TIPO DE PROTETOR BUCAL VOCÊ DEVE COMPRAR?

Ao introduzirem e aperfeicoarem os protetores bucais, os pugilistas deram mais uma importante contribuição à prática esportiva em geral. Hoje os protetores bucais são usados nos mais diversos esportes, gerando uma indústria milionária. A competição de mercado fez com que surgissem empresas fabricando protetores com alta tecnologia e usando equipamento e materiais sofisticados. Isso tudo faz com que hoje tenhamos uma enorme quantidade de tipos de protetores.

Em suma: não adianta escolhermos um protetor apenas pelo tipo estrutural. É necessário levar em conta a técnica de fabricação e o material usado.

Listamos os diversos tipos de protetores de boca:

Quanto à sua estrutura:

-Protetores convencionais
-Protetores de junta de queixo (duplos). Como vimos acima, são os melhores. Contudo é essencial que sejam de material macio e de boa qualidade de dissipação do impacto dos socos. Quando o material for duro, pode haver sério risco de cortes nas gengivas.

Quanto à técnica de fabricação:

-Pre-moldados (stock mouthguards) e que vem em tamanho único ou em dois tamanhos. Evite a qualquer custo.
-Tipo ferve-e-morde: feitos em tamanho único e de um plástico deformável pelo calor. A personalização é feita mordendo-o depois de aquecido. O ajuste, contudo, é precário e a espessura do protetor tende a afinar exatamente nas partes onde deveria ficar mais reforçada. Apesar de serem 90% dos protetores vendidos, eles deveriam ser evitados.
-Molde artesanal simples personalizado feito manualmente por dentista. Bem melhor qualidade que os tipos anteriores, mas inferiores aos seguintes.
-Personalizado feito com prensa a vácuo a partir de uma lâmina de plástico
-Personalizado multi-laminado feito com prensa a vácuo de alta pressão. São os melhores, pois que conseguem ficar tão justos nos dentes que precisamos fazer força para tirá-los. Além disso, a multilaminação consegue com que eles fiquem com cerca de 3 milímetros de espessura nos pontos onde é mais crítica a proteção. Faça tudo para ter um deles!

Quanto ao material usado:

-Borracha e cautchu (praticamente, coisas do passado)
-Silicone (fuja deles)
-EVA (etileno acetato de vinila): trata-se de um material plástico com excelente capacidade de dissipar a força dos socos — em vez de se limitar a transmiti-la, como fazem os materiais mais baratos — e que permite um molde perfeito, desde que usemos calor e uma prensa a vácuo. Trata-se do melhor material atualmente usado em protetores. Insista em ter esse material no seu protetor.

Referências:
Dr. B. D. Jordon: Oral and dental Injuries in Boxing. In: Dr. Barry O. Jordon: Medical Aspects of Boxing. CRC Press, Florida, 1993.
Hildebrandt JR, J. Garner-Nelson: Mouthguard Protection for Boxing. US Olympic Committee, 1990
Dr. Edward Williams: Risk Management for Concussions and Internal Head Injuries in Sports. WIPSS, 2000.
Dr. Edward Williams: Sport’s Dentistry. Athlete’s Jaw Disorder as it Relates to the Vital Cranial Tried. WIPSS, 1993.

Fonte: Federação Rio-Grandense de Pugilismo.

Author: Kadu Araujo

Entusiasta e praticante de artes marciais (atualmente Taekwondo e Boxe), Kadu "Ryu" Araújo é editor e tradutor no Elite Marcial. Começou a carreira nas lutas ainda no ensino fundamental com Capoeira, passando brevemente por Taekwondo e então pelo Kung-Fu (estilos Shaolin do Norte e Wing Chun - este último por 4 anos). Participa esporadicamente de campeonatos de kickboxe, e nas horas vagas justifica seu apelido com partidas online de Street Fighter no melhor estilo "Fliper de Rodoviária" no PS3.

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